Saturday, July 01, 2006
P R E F Á C I O :
Poesia sem propósito algum...
Catarse??? (...)
Jean Maurice
*compilação de textos realizada em março de 2000 a partir de textos escritos em 1997, 1998 e 1999
PROTÓTIPO DE CICLO VITAL
Suportar, fingir
Emoções dissimular
Pelos sentimentos dos outros se perder
Se confundir
Esquecer o que quer
Querer o que não quer
Se deprimir
Na inexpressão agonizar
Com a passividade agir
Não saber o que ter ou ser
Desconhecer o que está por vir
Se confundir
Esquecer o que quer
Querer o que não quer
Recomeçar e não conseguir
Insistir e fracassar
Errar e não saber porque
Pensar e não descobrir
MINHA CABEÇA COMO
UM SATÉLITE
Acima do céu,
ainda longe do Sol
Sob a densidade da atmosfera,
contra a gravidade estou à espera
do passaporte pra me tirar
do período circular,
do movimento de rotação,
da translação que se repete a cada ano,
do cotidiano
e da alienação de uma vida
que se repete a cada cinco minutos sem saída
que iniciam e terminam o ciclo de uma batalha
que se espalha
e que contamina pela monotonia
de um ar viciado que vicia
A cada dia que se supera
há uma nova batalha à espera,
e eu a glória esperando
com o prazer do mais terrível tirano
FÁBULA DA VIÚVA
Nuvens de algodão
Sol pintado à mão
Céu azul
de azul celeste
de lápis de cor
Chuva prateada-purpurina:
uma garoa fina
Chão dourado-ensolarado
embebedado pelo sol
A viuvinha caminha pela relva
de cor forte verde limão,
marchando marcha fúnebre
em um silêncio sepulcral
A vermelhidão da rosa
de amplitude luminosa
é um lampejo de luz
em uma alma de negro-luto
O ritual sempre se repete
pela nostalgia dos velhos tempos
Numa pequena sepultura
jaz um grande amor
A rosa é deixada
como algo encantador
Um coração saudoso pela dor,
pintado com a vermelhidão
que o tempo apagou
Cada recomeço
é a esperança de uma nova vida
Cada nascer do Sol
seguido por uma chuva
prateada-purpurina
é o despertar do coração
de uma fúnebre viuvinha:
Sol e chuva,
casamento de viúva
ANTENANDO ARTE
Eu quero exalar e captar
toda luxúria e volúpia
do bem-estar da alma
da sensibilidade artística
pelos sete buracos da minha cabeça,
pelos poros do epitélio carnal
e pelas linhas de campo
do magnetismo espiritual
que transcende o Homem
e interage com a Terra
Quero mandar um e-mail para Deus
pelo meu provedor celestial
Contratar um anjo-da-guarda
para minha segurança pessoal
PONTO DE VISTA
Cada céu, cada Sol
de todo mundo que há
Esse seu, nada igual
deste mundo em que estou
De toda energia,
apenas a que se dissipa
é a que me aquece
O que se movimenta
posso ver parado
se acompanhar
NOSSA MIRAGEM
Certas coisas não são para nós
e pensamos que sim
Certas coisas são para nós
e pensamos que não
Somos às vezes o que não pensamos
Pensamos ser às vezes o que não somos
Somos, estamos, temos...
Qual é a verdade?
UM RIO QUE CORRIA
Cadê a alegria
que um dia fez parte de mim
Um Rio que corria
Alegretes e festins
O cheiro do chão molhado
quando a chuva caía
O gelo do frio derretido
quando deitava ao sol
O suor que escorria
quando brincava de correr
Em toda atmosfera
o ar é quente
Não há lugar
Não há gente
Nada me faz feliz
PRÉDIO
Vidas empilhadas
num alicerce de concreto
Chão pra uns,
pra outros teto
Vários andares pra muitos
Um mesmo céu pra todos
Em suas janelas,
lugares quadrados
Em suas escadas,
passos marchados
Com domínio e destreza
os operários te fizeram
Condomínio,
AP três, cinco, sete
foi onde morei
GRAVIDADE
O que seria do jogador
se quando cruzasse
a bola não descesse
na cabeça do artilheiro?
O que seria do mundo inteiro
se quando andasse
subisse direto
pelas paredes do banheiro?
A inércia me mantém
parado ou em movimento,
estático ou dinâmico
Fugir eu experimento,
mas acho que não dá
O que seria da Terra
se não desse voltas pelo Sol,
passeasse com a Lua
sem ter rumo no espaço?
O que seria da moeda
jogada à esmo para cima?
Subiria numa boa
sem cair ou coroa
O médico deu o diagnóstico
e um remédio pra vitalidade
Operar será preciso?
Depende da gravidade
OCIOSIDADE
Acordar mal
de uma noite mal dormida
Dormir mal
num dia mal vivido
Tô cansado de não fazer nada
O nada é mais cansativo que tudo
Tudo é muito cansativo,
mas o nada sobretudo é muito mais
REFÚGIO
No horizonte do pensamento,
a verticalização das idéias
Paralelo às críticas,
inclinado ao trabalho
Na periferia emocional,
no centro da insanidade
Próximo à loucura,
longe da sociedade
VIAGEM PRA MARTE
Um barco flutua
na extensão do pensamento
A chuva cai pra cima
Repousa no firmamento
O chão não é o alicerce
pra quem pode voar
O céu não é o limite
pra quem pode sonhar
Minha cabeça vai no vácuo
de uma virtual mente
Imagens de um sonho
com um óculos sem lente
Um astronauta no espaço
Fuga da vida pela arte
Não vou mais pra Lua
O negócio agora é Marte
Um cometa atravessa
o céu na contramão
Um rebanho de nuvens
navega sobre o chão
O Homem vê a Terra
pela viagem espacial
O espírito vê o corpo
pela viagem astral
Um trem bala perdido
num labirinto em linha reta
Genética de indústria
Clonagem de bonecas
Um grafiteiro no asfalto
Fuga da vida pela rua
Se o negócio agora é Marte,
o que será da Lua?
GIRASSOL MOVE ESTRELAS
Lágrimas cinzentas,
de um momento de tristeza,
infectam sem vírus
na mais rica terra,
frutos de um pé-d’água
Pé-de-vento pedi chuva
Lágrimas brilhantes,
de um momento de alegria,
semeiam sem semente
na mais dura pedra,
flores coloridas
Girassol move estrelas
UM AFLUENTE
Um afluente me disse
que a água que por ele passa
um dia passou pelo rio
que no mar hoje deságua
ENCONTRO MARCADO
A vida é uma longa estrada
com destino rumo ao nada
Um caminho escuro e perigoso,
que para se alcançar uma meta,
não se segue uma reta
Vários caminhos se apresentam
escolhas tem que ser feitas
Uns parecem muito fáceis,
mas seu preço
um dia o cobrarão
Outros tão difíceis
como remar contra a maré
ou andar na contramão
Às vezes é como
um labirinto em linha reta,
de onde se vê o horizonte
onde habita sua meta
Com aparência linear,
tortuoso como é,
erram-se os caminhos
pra chegar onde quiser
Às vezes é tão rápida
quanto o vôo de uma flecha,
em outras é tão lenta
quanto uma caminhada cega
O relógio da vida não pára
Em nossa mente nos perdemos
Memórias são recicladas
com tudo aquilo que vivemos
e um dia
paramos pra pensar
Enquanto pensamos e vivemos,
filosofamos e escrevemos,
dormimos e acordamos,
sorrimos e choramos,
a morte caminha rondando
com passos nos flertando
Sisuda e veemente
Sorrateira e sorridente
Nos envenenando aos poucos
ou atacando de repente
Tenho medo que um dia
meu coração pare de bater
de tanto alívio e satisfação,
que a morte chegue e me carregue
me arrastando pela mão
e dizendo bem alto assim:
-Você era um Homem de ideais,
agora já não pensa mais
Não almeja mais nada
Vive só por viver
A ociosidade é um universo
Já não escreve mais um verso
Sua cabeça é um vão
que não tem fim
DOIS QUARTETOS
Essa poesia
tem dois quartetos:
duas estrofes
com quatro versos
Essa é a segunda
estrofe desse texto
Aqui o terceiro verso
e este é o fim
CRUZ E SOUSA
Cruz e Sousa
entre a cruz e a espada
Preto no branco
Branco no preto
Como nêgo instruído
foi reNEGADO
Como negro sabido
foi invejado
*Inspirado na biografia do poeta “Cruz e Sousa”, o maior representante do “Simbolismo” no Brasil. Autor dos marcos “Broquéis” e “Missal”.
CONSTRUÇÃO DO OLHAR
O que não é um ponto de vista,
se não mais um ponto no espaço
onde existem muitos outros
Cada um com seu olhar
Um espaço físico sem matéria
que não seja a matéria-prima,
utilizada com disciplina
para a construção do olhar
O que não é um ponto de vista,
se não um ponto final
ao término da linha
que estende o conhecimento
Marcando a conclusão,
retirada bem do fundo,
revirando meio mundo
do nosso arquivo pessoal
DIAS DE LUA
De óculos escuros
eu não vejo os seus olhos
Há dias tão confusos
A cada dia eu me afogo
Caminhos obtusos
rumam destinos afastados
Os paradeiros estão à esmo
no nosso mundo que não tem lógica
O meu sorriso não é mais o mesmo
Às vezes mudo a cada hora
Ainda sinto aquele beijo
com a boca seca de agora
ATRÁS DO CÉU
Seque sua alma
e enxugue a alegria
A espera é longa
A meta é incerta
Estenda a vontade
apontando o infinito
Olhe para o céu,
veja o brilho das estrelas
Elas não estão ali
Talvez seja lá o seu lugar
GRITO MUDO
Meu olhar grita o silêncio
da angústia de um prisioneiro
Um mundo espreita-se em mim
O prisioneiro sou eu mesmo
As estações mudam sempre
nesse espaço inconstante
Do verão para o inverno
eu pulo num instante
Vários dias se passam
no tempo em que se passa apenas um
Posso beber o presente
e sentir meu corpo em jejum
Vejo o futuro pelo passado
Observo pela fechadura
Quero abrir a porta inteira,
mas espero a hora à altura
COR DE FUNDO
Sua cor não é notada,
para destacar o protagonista
Sua incisão é a estratégia
que ajuda o ponto de vista
Pode passar por um borrão
num olhar desprevenido,
mas a sisudez chama a atenção
de um olhar apreensivo
Repousa opaca ao fundo
É a sombra do colorido
Se estende como a luz do Sol
que estampa um dia bonito
Solitária na timidez,
de outro modo posso ver
que ao invés do artista,
ela que quer aparecer
O cinza pode ser tão triste
e tão alegre quanto qualquer cor,
depende muito da intenção
que imprime o observador
É o meio-termo de preto e branco,
o meio filho da oposição
Um mesmo nome para tons
entre claridade e escuridão
A cor de fundo
dá outro tom ao mundo
Tanto às formas mais quadradas,
quanto às de aspecto curvo
É a dissonância de um acorde que navega
em direção a um olho surdo
Poesia sem propósito algum...
Catarse??? (...)
Jean Maurice
*compilação de textos realizada em março de 2000 a partir de textos escritos em 1997, 1998 e 1999
PROTÓTIPO DE CICLO VITAL
Suportar, fingir
Emoções dissimular
Pelos sentimentos dos outros se perder
Se confundir
Esquecer o que quer
Querer o que não quer
Se deprimir
Na inexpressão agonizar
Com a passividade agir
Não saber o que ter ou ser
Desconhecer o que está por vir
Se confundir
Esquecer o que quer
Querer o que não quer
Recomeçar e não conseguir
Insistir e fracassar
Errar e não saber porque
Pensar e não descobrir
MINHA CABEÇA COMO
UM SATÉLITE
Acima do céu,
ainda longe do Sol
Sob a densidade da atmosfera,
contra a gravidade estou à espera
do passaporte pra me tirar
do período circular,
do movimento de rotação,
da translação que se repete a cada ano,
do cotidiano
e da alienação de uma vida
que se repete a cada cinco minutos sem saída
que iniciam e terminam o ciclo de uma batalha
que se espalha
e que contamina pela monotonia
de um ar viciado que vicia
A cada dia que se supera
há uma nova batalha à espera,
e eu a glória esperando
com o prazer do mais terrível tirano
FÁBULA DA VIÚVA
Nuvens de algodão
Sol pintado à mão
Céu azul
de azul celeste
de lápis de cor
Chuva prateada-purpurina:
uma garoa fina
Chão dourado-ensolarado
embebedado pelo sol
A viuvinha caminha pela relva
de cor forte verde limão,
marchando marcha fúnebre
em um silêncio sepulcral
A vermelhidão da rosa
de amplitude luminosa
é um lampejo de luz
em uma alma de negro-luto
O ritual sempre se repete
pela nostalgia dos velhos tempos
Numa pequena sepultura
jaz um grande amor
A rosa é deixada
como algo encantador
Um coração saudoso pela dor,
pintado com a vermelhidão
que o tempo apagou
Cada recomeço
é a esperança de uma nova vida
Cada nascer do Sol
seguido por uma chuva
prateada-purpurina
é o despertar do coração
de uma fúnebre viuvinha:
Sol e chuva,
casamento de viúva
ANTENANDO ARTE
Eu quero exalar e captar
toda luxúria e volúpia
do bem-estar da alma
da sensibilidade artística
pelos sete buracos da minha cabeça,
pelos poros do epitélio carnal
e pelas linhas de campo
do magnetismo espiritual
que transcende o Homem
e interage com a Terra
Quero mandar um e-mail para Deus
pelo meu provedor celestial
Contratar um anjo-da-guarda
para minha segurança pessoal
PONTO DE VISTA
Cada céu, cada Sol
de todo mundo que há
Esse seu, nada igual
deste mundo em que estou
De toda energia,
apenas a que se dissipa
é a que me aquece
O que se movimenta
posso ver parado
se acompanhar
NOSSA MIRAGEM
Certas coisas não são para nós
e pensamos que sim
Certas coisas são para nós
e pensamos que não
Somos às vezes o que não pensamos
Pensamos ser às vezes o que não somos
Somos, estamos, temos...
Qual é a verdade?
UM RIO QUE CORRIA
Cadê a alegria
que um dia fez parte de mim
Um Rio que corria
Alegretes e festins
O cheiro do chão molhado
quando a chuva caía
O gelo do frio derretido
quando deitava ao sol
O suor que escorria
quando brincava de correr
Em toda atmosfera
o ar é quente
Não há lugar
Não há gente
Nada me faz feliz
PRÉDIO
Vidas empilhadas
num alicerce de concreto
Chão pra uns,
pra outros teto
Vários andares pra muitos
Um mesmo céu pra todos
Em suas janelas,
lugares quadrados
Em suas escadas,
passos marchados
Com domínio e destreza
os operários te fizeram
Condomínio,
AP três, cinco, sete
foi onde morei
GRAVIDADE
O que seria do jogador
se quando cruzasse
a bola não descesse
na cabeça do artilheiro?
O que seria do mundo inteiro
se quando andasse
subisse direto
pelas paredes do banheiro?
A inércia me mantém
parado ou em movimento,
estático ou dinâmico
Fugir eu experimento,
mas acho que não dá
O que seria da Terra
se não desse voltas pelo Sol,
passeasse com a Lua
sem ter rumo no espaço?
O que seria da moeda
jogada à esmo para cima?
Subiria numa boa
sem cair ou coroa
O médico deu o diagnóstico
e um remédio pra vitalidade
Operar será preciso?
Depende da gravidade
OCIOSIDADE
Acordar mal
de uma noite mal dormida
Dormir mal
num dia mal vivido
Tô cansado de não fazer nada
O nada é mais cansativo que tudo
Tudo é muito cansativo,
mas o nada sobretudo é muito mais
REFÚGIO
No horizonte do pensamento,
a verticalização das idéias
Paralelo às críticas,
inclinado ao trabalho
Na periferia emocional,
no centro da insanidade
Próximo à loucura,
longe da sociedade
VIAGEM PRA MARTE
Um barco flutua
na extensão do pensamento
A chuva cai pra cima
Repousa no firmamento
O chão não é o alicerce
pra quem pode voar
O céu não é o limite
pra quem pode sonhar
Minha cabeça vai no vácuo
de uma virtual mente
Imagens de um sonho
com um óculos sem lente
Um astronauta no espaço
Fuga da vida pela arte
Não vou mais pra Lua
O negócio agora é Marte
Um cometa atravessa
o céu na contramão
Um rebanho de nuvens
navega sobre o chão
O Homem vê a Terra
pela viagem espacial
O espírito vê o corpo
pela viagem astral
Um trem bala perdido
num labirinto em linha reta
Genética de indústria
Clonagem de bonecas
Um grafiteiro no asfalto
Fuga da vida pela rua
Se o negócio agora é Marte,
o que será da Lua?
GIRASSOL MOVE ESTRELAS
Lágrimas cinzentas,
de um momento de tristeza,
infectam sem vírus
na mais rica terra,
frutos de um pé-d’água
Pé-de-vento pedi chuva
Lágrimas brilhantes,
de um momento de alegria,
semeiam sem semente
na mais dura pedra,
flores coloridas
Girassol move estrelas
UM AFLUENTE
Um afluente me disse
que a água que por ele passa
um dia passou pelo rio
que no mar hoje deságua
ENCONTRO MARCADO
A vida é uma longa estrada
com destino rumo ao nada
Um caminho escuro e perigoso,
que para se alcançar uma meta,
não se segue uma reta
Vários caminhos se apresentam
escolhas tem que ser feitas
Uns parecem muito fáceis,
mas seu preço
um dia o cobrarão
Outros tão difíceis
como remar contra a maré
ou andar na contramão
Às vezes é como
um labirinto em linha reta,
de onde se vê o horizonte
onde habita sua meta
Com aparência linear,
tortuoso como é,
erram-se os caminhos
pra chegar onde quiser
Às vezes é tão rápida
quanto o vôo de uma flecha,
em outras é tão lenta
quanto uma caminhada cega
O relógio da vida não pára
Em nossa mente nos perdemos
Memórias são recicladas
com tudo aquilo que vivemos
e um dia
paramos pra pensar
Enquanto pensamos e vivemos,
filosofamos e escrevemos,
dormimos e acordamos,
sorrimos e choramos,
a morte caminha rondando
com passos nos flertando
Sisuda e veemente
Sorrateira e sorridente
Nos envenenando aos poucos
ou atacando de repente
Tenho medo que um dia
meu coração pare de bater
de tanto alívio e satisfação,
que a morte chegue e me carregue
me arrastando pela mão
e dizendo bem alto assim:
-Você era um Homem de ideais,
agora já não pensa mais
Não almeja mais nada
Vive só por viver
A ociosidade é um universo
Já não escreve mais um verso
Sua cabeça é um vão
que não tem fim
DOIS QUARTETOS
Essa poesia
tem dois quartetos:
duas estrofes
com quatro versos
Essa é a segunda
estrofe desse texto
Aqui o terceiro verso
e este é o fim
CRUZ E SOUSA
Cruz e Sousa
entre a cruz e a espada
Preto no branco
Branco no preto
Como nêgo instruído
foi reNEGADO
Como negro sabido
foi invejado
*Inspirado na biografia do poeta “Cruz e Sousa”, o maior representante do “Simbolismo” no Brasil. Autor dos marcos “Broquéis” e “Missal”.
CONSTRUÇÃO DO OLHAR
O que não é um ponto de vista,
se não mais um ponto no espaço
onde existem muitos outros
Cada um com seu olhar
Um espaço físico sem matéria
que não seja a matéria-prima,
utilizada com disciplina
para a construção do olhar
O que não é um ponto de vista,
se não um ponto final
ao término da linha
que estende o conhecimento
Marcando a conclusão,
retirada bem do fundo,
revirando meio mundo
do nosso arquivo pessoal
DIAS DE LUA
De óculos escuros
eu não vejo os seus olhos
Há dias tão confusos
A cada dia eu me afogo
Caminhos obtusos
rumam destinos afastados
Os paradeiros estão à esmo
no nosso mundo que não tem lógica
O meu sorriso não é mais o mesmo
Às vezes mudo a cada hora
Ainda sinto aquele beijo
com a boca seca de agora
ATRÁS DO CÉU
Seque sua alma
e enxugue a alegria
A espera é longa
A meta é incerta
Estenda a vontade
apontando o infinito
Olhe para o céu,
veja o brilho das estrelas
Elas não estão ali
Talvez seja lá o seu lugar
GRITO MUDO
Meu olhar grita o silêncio
da angústia de um prisioneiro
Um mundo espreita-se em mim
O prisioneiro sou eu mesmo
As estações mudam sempre
nesse espaço inconstante
Do verão para o inverno
eu pulo num instante
Vários dias se passam
no tempo em que se passa apenas um
Posso beber o presente
e sentir meu corpo em jejum
Vejo o futuro pelo passado
Observo pela fechadura
Quero abrir a porta inteira,
mas espero a hora à altura
COR DE FUNDO
Sua cor não é notada,
para destacar o protagonista
Sua incisão é a estratégia
que ajuda o ponto de vista
Pode passar por um borrão
num olhar desprevenido,
mas a sisudez chama a atenção
de um olhar apreensivo
Repousa opaca ao fundo
É a sombra do colorido
Se estende como a luz do Sol
que estampa um dia bonito
Solitária na timidez,
de outro modo posso ver
que ao invés do artista,
ela que quer aparecer
O cinza pode ser tão triste
e tão alegre quanto qualquer cor,
depende muito da intenção
que imprime o observador
É o meio-termo de preto e branco,
o meio filho da oposição
Um mesmo nome para tons
entre claridade e escuridão
A cor de fundo
dá outro tom ao mundo
Tanto às formas mais quadradas,
quanto às de aspecto curvo
É a dissonância de um acorde que navega
em direção a um olho surdo
